Fluxos Comunicacionais e Crise da Democracia

O tema do 42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, “Fluxos Comunicacionais e Crise da Democracia”, propõe os fluxos comunicacionais como ângulo de entrada escolhido para discutirmos a Crise da Democracia. Fluxo é movimento: na Filosofia, os gregos clássicos afirmavam que a vida é um fluxo contínuo; nas Artes, o Fluxus era o modo de fazer e viver, de romper as barreiras, de olhar as coisas do mundo. A adjetivação comunicacionais articula diretamente essa reflexão à discussão sobre Democracia. Segundo Wolton (2004, p. 34), “[…] não há Democracia sem comunicação”. Ao qualificarmos os fluxos como comunicacionais orientamos nossa preocupação com os processos interacionais entre os sujeitos sociais em tempos de fluxos velozes, dinâmicos e cada vez mais complexos.

Assim, o tema central do Congresso da Intercom em 2019 não se centra apenas nas discussões dos movimentos contínuos de algo ou alguém para algum lugar, nas configurações dos movimentos nas infovias. Antes disso, e sobretudo, convoca-nos a perceber os fluxos que tecem as relações entre os diferentes atores na sociedade atual. Fluxos que se configuram de forma direta e indireta, fragmentada e contínua, linear e não linear, diversificada e homogênea, unidirecional e multidirecional.

Sejam quais forem os movimentos, os fluxos comunicacionais reivindicam a urgência da coabitação dos atores sociais. E “[…] coabitar é respeitar o outro, e democracia é isso” (Wolton, 2006, p. 57). A Democracia pressupõe a coabitação entre diferentes perspectivas, a capacidade de diálogo e de negociação. Quando negociamos, respeitamos a diferença, a divergência, consideramos o dissenso como processo imprescindível para a busca de melhores formas de ser e estar no mundo. Negociar é ceder, avançar, recuar, propor, observar, estabelecer conexões, estar em movimento. Para negociar é preciso comunicar, considerar a existência do outro, conhecê-lo, demovê-lo de suas certezas, seduzi-lo, convencê-lo, em um processo de constantes embates e debates. Ações alicerçadas nesses princípios são fundamentais para a proteção dos direitos humanos, a liberdade de expressão e de crença, e para garantir a participação na política e na cultura das sociedades. São essas as bases da Democracia.

Em uma sociedade aberta, marcada pelo intenso fluxo de pessoas, ideias, ideais, culturas, políticas, economias, tecnologias, dados, informações, o respeito às liberdades coletivas e individuais é um dos maiores desafios. Esse movimento planetário de abertura, configurado fortemente por uma visão tecnicista da comunicação, coloca frente a frente diferenças, divergências, fragilidades, evidenciando nossas humanidades. Se temos uma crise na Democracia, temos, na base, uma crise comunicacional! Nesse contexto, emerge a necessidade urgente de nos voltarmos com afinco para as dimensões humanitária e simbólica da comunicação. A necessidade de conhecer, perceber, ouvir e compreender o outro.

Lutamos por um mundo, e um país, em que cada vez mais todos possam falar. Hoje muitos falam para muitos, mas quem está ouvindo? Buscando conhecer quem fala? Buscando compreender o que fala? Comunicação também é escuta e, sobretudo, a busca pelo conhecimento e a compreensão sobre o outro. Se todos falam ao mesmo tempo, quem está escutando, mediando, tentando compreender, contemporizando? Não há dúvida sobre as riquezas que caracterizam os fluxos neste século, temos dimensão das aberturas, dos movimentos, da disponibilização e das diferentes ambiências existentes. Mas como estão as interações entre os atores sociais? Um tempo rico e igualmente de grande ameaça à Democracia. Ameaça por exigir de nós um extremo e constante exercício de escuta, de compreensão, de alteridade, elementos muitas vezes solapados pela velocidade de nosso cotidiano.

Em momentos de extrema polarização como o que vivemos no Brasil e no mundo, exercitar a coabitação e a negociação, buscando a equidade a partir do respeito às diferenças e às diversidades, requer colocar em prática um saber que evidencie as dimensões humanitária e simbólica da comunicação. Nesses momentos, várias áreas estão sendo convocadas a apresentar caminhos para superação da crise e, consequentemente, as competências da área de Comunicação serão postas à prova. Quais serão nossas contribuições para o estabelecimento e manutenção dos fluxos comunicacionais e para superação da crise da Democracia? Tanto quanto problematizar os públicos dos processos comunicacionais, precisamos atentar para as ações de comunicação pública, para o papel das instituições para as garantias estruturais dos fluxos comunicacionais e para a manutenção democrática.

No maior Congresso de Comunicação do país, para além de buscar responder a essas questões, poderemos lapidar melhor nossas perguntas e, assim, orientar nossas buscas por soluções, pois, se há uma crise, é urgente e necessário que apresentemos caminhos para sua superação. Não podemos deixar os fluxos comunicacionais estagnarem, colocando em risco o processo democrático do país.

 

Referências

WOLTON, Dominique. É preciso salvar a comunicação. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2006.

WOLTON, Dominique. Pensar a comunicação. Brasília: Editora da UnB, 2004.

Núcleo de Inovação e Tecnologias Aplicadas a Ensino e Extensão – NITAE2 | Universidade Federal do Pará | Belém-PA.