Corpos negros na universidade

Conferência de abertura do GP de Estéticas, Políticas do Corpo e Gênero pontuou a importância de consolidar políticas afirmativas no ensino superior

“Estamos disputando signos, significados e significantes. Acredito que os profissionais de comunicação precisam exercitar a observação e ir além dos discursos normalizados dos corpos negros. Sobretudo os jornalistas, que possuem uma função social importante”, pontuou a professora Zélia Amador, referência nacional nos estudos étnico-raciais, na conferência “Ética e estética: a presença de corpos negras e negros nas universidades federais brasileiras”, na abertura do GP “Estéticas, Políticas do Corpo e Gênero”. A fala da docente da UFPA fez parte da programação do  42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom 2019), que ocorreu de 2 a 7 de setembro em Belém.

Zélia, que já foi vice-reitora da UFPA, salientou que a política nacional de cotas mudou o perfil das universidades brasileiras, especialmente a UFPA. Segundo a pesquisadora, hoje os alunos autodeclarados pretos, pardos e índios representam um número superior ao de estudantes brancos. “Com as cotas, os corpos negros passaram a ocupar todos os cursos. O corpo africano é um corpo que fala, transforma-se em texto no discurso que enuncia, anuncia e denuncia. É o corpo estigmatizado pelo racismo. Ao mesmo tempo, é um instrumento de afirmação de identidades, no embate com os opressores a partir de um processo de tomada de consciência”, explicou. 

De acordo com a professora, a inclusão social pensada por muitos anos no Brasil era centrada em apenas garantir a vaga aos estudantes. Entretanto, a inclusão de pessoas negras deve considerar a carga extra que estes alunos trazem. “A inclusão pensada nas cotas não deve ser de mão única, mas de mão dupla, pois os alunos e alunas negros são responsáveis por si, pela sua raça e pelos seus ancestrais”, explicou, complementando que esses corpos negros são animados por exu, uma entidade de religiões de matriz africana que passou por um processo de demonização pelos governos coloniais, mas que representa uma força de comunicação entre as divindades e as pessoas. “Exu é representado por uma ética e estética agressivas, uma força capaz de romper o rígido tecido da cultura colonial. Essa demonização de exu se perpetua com os negros e negras no cotidiano acadêmico. Estes estudantes, quando buscam trabalhar a questão racial na academia, precisam superar diversos obstáculos, como a falta de orientadores, minimização das questões levantadas, além das dificuldades inerentes de acesso e permanência”. Essas dificuldades cotidianas, da necessidade do trabalho, da falta de dinheiro para alimentação, livros, xerox, congressos, desestímulo, Joseane Franco Teles conhece bem. 

Shaira Mana Josy, como Joseane também é conhecida pelo seu trabalho no hip hop, moradora do bairro Terra Firme, ao lado da UFPA, lembra do tempo em que os corpos negros estavam restritos ao lado de fora dos muros da universidade. Hoje concluindo o curso de Pedagogia, a universitária diz que sua escolha profissional passa pelo desejo de fazer a diferença pela via da Educação. Ao lado da professora Zélia, Shaira dividiu a fala da conferência de abertura. “Encontrei um jeito de fazer minha voz ser ouvida. O movimento hip hop é uma ferramenta de transformação social, da mesma maneira que a educação”, conta. Negra, periférica e feminista, Shaira usa os espaços que frequenta e sua poesia para reivindicar um mundo sem miséria, racismo e misoginia. “Minha arte me leva a muitos lugares e, mais importante, leva essa crítica importante adiante”, destaca. 
 
História marcada por lutas

Zélia Amador possui uma trajetória de vida repleta de lutas, superações e ativismo. A professora é natural da cidade de Soure, localizada no Arquipélago do Marajó, estado do Pará. Desde muito nova, batalhou para conseguir estudar e dar continuidade a sua formação. Em 1974, obteve o diploma de graduação em Licenciatura Plena em Língua Portuguesa pela UFPA e, alguns anos depois, cursou especialização em Teoria Literária, na mesma Instituição. Conquistou, ainda, o título de Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e de Doutora em Ciências Sociais, pela UFPA.

Na Universidade, a professora alcançou importantes cargos de gestão, como diretora do, então, Centro de Letras e Artes (CLA) e vice-reitora. Além disso, Zélia se dedicou ao teatro, participou de diversos espetáculos e foi agraciada com o Troféu Máscara de Ouro, em 1973, da Escola de Teatro da UFPA, da qual faz parte das primeiras turmas.

A professora atua como militante em vários movimentos e momentos históricos na região Norte e no Brasil. Em 1980, quando a repercussão dos movimentos sociais ganha ainda mais força, ela foi co-fundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), buscando pensar políticas públicas para combater o racismo e diminuir as desigualdades. Em 2001, a professora fez parte da comissão brasileira na 3ª Conferência contra o racismo da Organização das Nações Unidas (ONU), em Durban, na África do Sul. Atualmente, continua sua luta produzindo pesquisas e ministrando palestras em eventos em todo o Brasil e no exterior. 

Texto: Paula Coruja
Foto: Tamara Mesquita

 

Núcleo de Inovação e Tecnologias Aplicadas a Ensino e Extensão – NITAE2 | Universidade Federal do Pará | Belém-PA.