A importância das Humanidades

Colóquio Ciências Humanas discute o papel dessas áreas na construção do conhecimento

O I Colóquio Ciências Humanas foi realizado no dia 5 de setembro de 2019, no auditório da SEGE, Reitoria na Universidade Federal do Pará, como parte do 42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Intercom 2019. O evento programado para ocorrer até as 18 horas, comportou três mesas de discussão dentro da temática “Ciências Humanas em Xeque”.

A palestra de abertura contou com as participações do professor Fernando Arthur de Freitas (IFCH-UFPA); e do professor Giovandro Ferreira (UFBA/INTERCOM). Iniciando as falas, o professor Fernando saudou a mesa e o público presente, explicou o Colóquio e seu tema e discorreu sobre a importância de se discutir as ciências humanas, pontuando o atual contexto dessas discussões. O professor ainda afirmou: “Nós estamos abertos para tentar empreender sobre como se produz o conhecimento”, compartilhando sua visão e suas expectativas sobre o evento.

O professor Giovandro iniciou sua fala pontuando a importância dessa discussão interdisciplinar para pensarmos as atuais perspectivas. O momento é muito propício, afirma o professor, discorrendo sobre o atual contexto político nacional e suas implicações nas políticas públicas. Ele também ressalta a importância de nos atentarmos para o cenário midiático, tanto no processo de produção de discursos, quanto no que diz respeito às tecnologias de comunicação. Giovandro exemplifica: “Isso aqui (referindo-se ao seu smartphone) é o mundo em minhas mãos, mas sou eu também nas mãos do mundo”.

Iniciando a mesa 1, “Conhecimento e Práxis das Humanidades nas Políticas Públicas”, a mediadora, professora Maria Ataide Malcher, ressaltou a importância do Colóquio como um processo de construção de conhecimento e, mais ainda, de valorização do que essas ciências representam, compartilhando sua satisfação em fazer parte da mesa.

A primeira fala foi do professor Thiago Dias Costa (UFPA), que apresentou o trabalho desenvolvido pelo Laboratório de Gestão do Comportamento Organizacional (GESTCOM), no qual ocupa o cargo de coordenador. O laboratório, vinculado ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da UFPA, é responsável pelo projeto de mapeamento de competências que avalia os objetivos estratégicos de órgãos e instituições e, a partir dessa análise, lista as competências necessárias para que o órgão alcance determinado objetivo. A partir do levantamento dessas competências, o projeto sugere as capacitações ideais para que os servidores desenvolvam as competências levantadas.

Segundo Thiago, “um exemplo de lacuna de competência seria o fato de os servidores não saberem lidar com o assédio moral”, o que confirma a importância do mapeamento de competências e as avaliações situacionais. As capacitações seguem o modelo de trilhas de aprendizagem, que sugere três metodologias que o servidor pode escolher; Capacitação a distância; Capacitação presencial; e Capacitação mista, que une as duas anteriores. Exemplificando a eficácia das atividades do projeto, o professor compartilhou o Selo Unicef, uma estratégia criada para o fortalecimento de políticas públicas e redução das desigualdades que afetam a vida das crianças e dos adolescentes brasileiros. Como responsabilidade dos municípios, nenhum dos indicadores foram alcançados a níveis estaduais na Amazônia legal. Em parceria com a Unicef, o projeto desenvolveu uma série de materiais institucionais para auxiliar as prefeituras nesse processo e estas evoluíram de uma média de 25% para 92% de alcance nos indicadores propostos.

Em seguida, Andréa Bittencourt Pires Chaves (UFPA) assumiu a fala abordando o tema de Políticas Públicas e o mundo do trabalho. Ela começou reforçando a importância do colóquio. Segundo ela: “O que as ciências humanas fazem se torna muito importante para o momento obscuro em que estamos vivendo”.

Ao discorrer sobre Institucionalidade estatal, Andréa diz que cabe ao Estado regular as instituições através das leis e políticas públicas necessárias; e que seria função do Estado coordenar as relações, reduzir os custos de transações e diminuir as incertezas. Porém, caso se tenha uma Institucionalidade rarefeita, o que se percebe é um aumento na informalidade, que vai colocar em risco o sistema posto e a rarefação do zelo às leis. A professora discorre sobre a relação do capitalismo com o crescimento brasileiro e critica a tentativa falha de tentativa de retorno ao crescimento percebido em 20 anos de um cenário econômico favorável que acabou, dando início ao que ela chama de “o dia seguinte”, quando o atual governo assumiu, ou, segundo ela, “entrou pela porta dos fundos”, ocasionando o que se percebe: desemprego e violência resultados do ambiente de regulação rarefeita; e a desconfiança advinda com o fechamento de instituições que ameaça a democracia.

Andréa critica o governo atual e traz argumentos que mostram as consequências de ações como os cortes orçamentários e as privatizações, por exemplo. A tentativa de retorno ao crescimento falhou com a passividade do Estado e a atuação da iniciativa privada. Segundo ela: “O capitalismo é a raiz de todos os problemas”. A professora finaliza sua fala alertando que precisamos de um novo modo de vida.

A última fala da manhã foi do professor Paulo de Tarso Ribeiro de Oliveira (UFPA), que se ateve a indagação: “Como produzir o conhecimento nos dias de hoje?”. Ele trouxe, como imagem, o contexto do surto de cólera em Paris na segunda metade do século XIX, onde se percebeu uma mudança paradigmática através de estudos interdisciplinares que conseguiram encontrar a causa do problema apresentado.

O professor indagou sobre o conceito de saúde apresentado pela Organização Mundial da Saúde, o qual diz que saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças. Segundo ele, esse conceito é utópico, além de não atentar para o fato de a saúde ser um movimento de tensão que depende de fatores como a ciência, o Estado, a economia, entre outros.

A ciência como esperança para a salvação da humanidade falhou, segundo o professor Paulo. O nível não foi alcançado, já que continuamos presos a alguns grilhões. Para esses e outros dilemas, precisamos da interdisciplinaridade, a conversa entre os muros, entre as diferentes disciplinas.

Ao abordar o tema das políticas públicas no Brasil, o professor cita o caso do aumento expressivo no número de equipes de estratégia de saúde da família como política pública eficiente. Paulo também critica a forma de como não acompanhamos devidamente os feitos publicados diariamente no Diário Oficial da União. Em detrimento, nos atentamos para as mensagens do presidente da República que são difundidas nas redes sociais.

Paulo de Tarso alerta que precisamos nos voltar a uma visão mais comunitarista e sugere um livro para que todos leiam. “O livro mais subversivo do momento, pelo qual devemos lutar, é a Constituição de 1988”. Em seguida, encerrou sua participação declamando uma poesia de João de Barros.

 

Durante a tarde

Pela parte da tarde, no Colóquio, ocorreram duas mesas. A Mesa 2, com o tema “Desumanidade e Ordem Estatal: Desigualdades no território”, teve como palestrantes Giovane da Silva (UFPA), Márcio Douglas Amaral (UFPA), Clay Anderson Nunes (UFPA) e Ruy Sardinha Lopes (USP).

Na mesa, os pesquisadores abordaram pensamentos e pesquisas em torno da importância das ciências humanas, do quanto as mesmas são essenciais, presentes em todas as situações da vida cotidiana, e como elas encontram-se interligadas a todas as áreas de trabalho da sociedade. O professor Giovane da Silva discutiu como atualmente, no país, a ciência e a pesquisa estão passando por tempos difíceis, sem investimentos, patrocínios e políticas públicas em seu contexto.

“Em todos os momentos da nossa existência, não dá para separar a ciência da vida humana. A desumanidade, o papel da ciência nessa questão e o quanto o governo tenta silenciar essa prática são pontos para se pensar. Sempre fizemos pesquisa com muito pouco e conseguimos grandes resultados”, afirmou Ruy Sardinha Lopes (USP).

Por fim, ocorreu ainda a Mesa 3, com o tema “Insegurança das epistemologias autônomas das humanidades, Decolonial e o avesso civilizacional”, que contou com os palestrantes Jean-François Yves Deluchey (UFPA), Patrícia da Silva (UFPA) e Nelson José de Souza Júnior (UFPA). Na mesa, os pesquisadores desenvolveram pensamentos em torno da história civilizatória do país, desde o primeiro contato entre índios e portugueses, até o momento atual, tomando como parâmetro discursos de líderes do estado brasileiro.

 

Texto: Carlos Augusto Gomes da Silva e Celso Júnior

Edição: Felipe Florêncio

 
 

 

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