Ciclo de Estudos reunirá grandes nomes nacionais e internacionais para debater os fluxos comunicacionais e a crise da democracia

O Jornal Intercom conversou com alguns dos convidados do Ciclo de Estudos. Confira.

Pesquisadores e profissionais da Comunicação no Brasil terão a oportunidade de acompanhar discussões profundas sobre a sociedade atual durante o 42º Ciclo de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, no dia 4 de setembro em Belém. Tratando do tema central dos congressos da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) em 2019 – “Fluxos comunicacionais e crise da democracia” –, o Ciclo de Estudos promoverá uma conferência de abertura e três mesas ao longo do dia, como parte do 42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom 2019), a ser realizado de 2 a 7 de setembro na Universidade Federal do Pará (UFPA).

“Ao qualificarmos os fluxos como comunicacionais, orientamos nossa preocupação com os processos interacionais entre os sujeitos sociais nesses tempos de fluxos velozes, dinâmicos e cada vez mais complexos”, afirma Nair Prata (UFOP), diretora Científica da Intercom e coordenadora geral do Ciclo de Estudos. “O tema não se centra apenas nas discussões dos movimentos contínuos de algo ou alguém para algum lugar, nas configurações dos movimentos nas infovias. Sobretudo, convoca-nos a perceber os fluxos que tecem as relações entre os diferentes atores na sociedade atual”.

Além da conferência de abertura sobre o tema central, que será proferida pelo espanhol Ramón Salaverría (Universidade de Navarra) com mediação de Giovandro Ferreira (UFBA), presidente da Intercom, o Ciclo terá três mesas para discussões mais específicas relacionadas a ele. “A conferência de abertura é, de certa forma, a culminação de uma reflexão que vem sendo feita pela Intercom ao longo do ano, principalmente em seus cinco congressos regionais. A partir dela, teremos um desdobramento ao longo das três mesas, compostas por nomes representativos da área, tanto nacional quanto internacionalmente. Além disso, o congresso nacional da Intercom é muito grande, com eventos explorando diferentes aspectos da questão dos fluxos comunicacionais e da crise da democracia”, afirma o professor Giovandro Ferreira.

O JORNAL INTERCOM conversou com alguns dos convidados do Ciclo de Estudos. Confira.

CONFERÊNCIA DE ABERTURA – Fluxos comunicacionais e crise da democracia

4 de setembro, das 8h30 às 10h30

Conferencista: Ramón Salaverría (Universidade de Navarra)

Moderador: Giovandro Ferreira (UFBA/INTERCOM)

“Transmitir uma mensagem de coragem e perseverança” para que os pesquisadores brasileiros atuem para o fortalecimento da democracia é o intuito do conferencista Ramón Salaverría, professor da Universidade de Navarra e um dos principais pesquisadores sobre meios digitais e jornalismo digital na atualidade.

“Sabemos que a comunicação pública, em geral, e o jornalismo, em particular, sofrem problemas graves. Diante dessa situação, muitos pesquisadores têm adotado duas posturas: a de notário não comprometido ou a de crítico destrutivo, ambas igualmente nocivas. A de notário, porque é uma postura passiva, que se concentra em medir a magnitude dos problemas, como se o que se estuda fosse um fenômeno sem consequências que convém resolver. Pior ainda é o perfil do crítico destrutivo: aquele pesquisador que só sabe indicar problemas, mas jamais propõe soluções”, analisa Salaverría.

Segundo o professor espanhol, a evolução tecnológica promoveu transformações essenciais na comunicação pública – alcance global, instantaneidade e grandes possibilidades de expressão multimídia –, que, por sua vez, geraram problemas graves para a sociedade. “Esse inquestionável avanço se deu às custas de converter a comunicação em um fenômeno regido principalmente por critérios quantitativos, desprendidos de valores éticos e inclusive, com frequência, da mais mínima veracidade”, explica.

Entre as consequências desse processo para a sociedade, Salaverría destaca o desenvolvimento de extremismos em diversos países. Longe de uma fórmula pronta e fácil, a solução é buscar formas de “tornar o espaço público mais respirável” e, assim, fortalecer a democracia. “Uma dessas formas é o jornalismo, mas não qualquer jornalismo. Precisamos de uma atividade informativa profissional e responsável, que recupere seu fundamento de serviço à sociedade”, completa o conferencista. “No contexto atual, não é fácil, mas isso deve ser reivindicado. É o que pretendo fazer em minha conferência”.

Sobre o papel da academia na busca por soluções para a crise da democracia, o professor Giovandro Ferreira destaca a tradição acadêmica latino-americana de articular a reflexão com a ação engajada e transformadora, que teve grande contribuição de José Marques de Melo, um dos fundadores da Intercom. “Que papel tem a academia nesse mundo em transformação? Um dos desafios que nos é colocado neste momento é como a pesquisa em Comunicação pode motivar o perfil de intelectuais orgânicos, que estejam comprometidos em fazer reflexões em busca de ações efetivas”, afirma. “A crise é também da representatividade, da autoridade, da discursividade. E neste contexto também se insere nosso papel enquanto pesquisadores e intelectuais.”

O professor Giovandro Ferreira ressalta a necessidade de se fazer uma análise sobre a situação específica do Brasil. “Embora haja uma crise ampla e mundial, nossa jovem democracia tem características específicas e sempre esteve tensionada. A transformação dos fluxos comunicacionais é uma parte da crise de nossa democracia, mas há outras causas que vêm dos porões de nossa história. De tempos em tempos, o Brasil entra em transe, como dizia Glauber Rocha. E, neste momento, estamos em transe”, alerta.

Leia entrevista com o professor Giovandro Ferreira publicada em maio pelo JORNAL INTERCOM: ‘ESTAMOS EM MEIO A UM VENDAVAL’, AFIRMA PRESIDENTE DA INTERCOM.

MESA 1 – Instituições paradigmáticas: comunicação, conflitos e reposicionamentos

4 de setembro, das 10h30 às 12h30

Palestrantes: Ruben George Oliven (UFRGS); Karla Patriota Bronsztein (UFPE); Ismar de Oliveira Soares (USP); José Maia Bezerra Neto (UFPA)

Moderadora: Nair Prata (UFOP/INTERCOM)

Segundo a professora Nair Prata, o intuito da primeira mesa do 42º Ciclo de Estudos da Intercom será discutir questões que envolvem algumas das instituições que consolidaram o paradigma da modernidade: Universidade, Família, Estado, Igreja. “Essas instituições, que até o século passado eram eixos estruturantes da sociedade, no contemporâneo passam por tensionamentos que provocam grandes conflitos e demandam reposicionamentos de diversas ordens”, explica. “Os pesquisadores convidados desta mesa representarão essas instituições e irão abordar os tensionamentos ligados a elas”.

MESA 2 – Fluxos e contrafluxos comunicacionais: crise da discursividade e disputas por narrativas
4 de setembro, das 14h às 16h

Palestrantes: Antonio Fausto Neto (Unisinos); Ana Cristina Suzina (Collège d’Études

Mondiales); Juliana Doretto (FAM)

Moderador: Sérgio Mattos (UFRB/INTERCOM)

A internet como “campo de batalha” em um novo desenho de produção, circulação e recepção de informação: assim define Antonio Fausto Neto (Unisinos), que comporá a Mesa 2 do Ciclo de Estudos para debater o tema “Fluxos e contrafluxos comunicacionais: crise da discursividade e disputas por narrativas”.

Presidente do Centro Internacional de Semiótica e Comunicação (Ciseco) e autor de diversos livros – entre os quais “Desconstruindo os sentidos” (2001) e “O mundo das mídias” (2004) –, o professor Fausto Neto salienta a importância do tema proposto neste ano pela Intercom para seus congressos. “Pelo perfil e trajetória de pesquisa dos integrantes da mesa, acredito que teremos um debate muito didático sobre o fenômeno da midiatização e a batalha pelos sentidos que ele gera. Certamente, o público terá pistas para futuras pesquisas sobre o tema”, afirma.

O professor Fausto Neto adianta, em linhas gerais, o conceito em que baseará sua palestra. Com a internet, todos na sociedade tornaram-se geradores de sentidos, alterando o mecanismo de produção e circulação de informação – se antes essa arquitetura incluía produtores (mass media) e receptores (atores sociais), hoje todos os atores sociais são geradores de sentidos. “Ao redesenhar os fluxos e circuitos de comunicação, a midiatização propiciada pela revolução tecnológica desloca a disputa de sentidos para o campo da internet, o que, por sua vez, origina um fenômeno cultural novo”, afirma o pesquisador. “Todos nós temos, de modo relativamente paritário – entre aspas -, acesso à informação. O que muda é o jogo de apropriação e tratamento desses dados, e o destino que dão à vida social. Os campos sociais continuam realizando seus respectivos papéis (Direito, Medicina, Religião etc.), mas estão expostos a circuitos de funcionamento de dados. O que se chama de ‘vazamento’ é efeito justamente de como essa sociedade lida com o acesso à documentação. Um bom exemplo da disputa de sentidos que estamos vendo hoje: jornais se unindo para definir o que é verdade, enquanto outros campos sociais (o do Direito, por exemplo) dizem que não é bem assim”.

MESA 3 – O desafio das redes sociais digitais: regulação, ética e reconstrução da democracia

4 de setembro, das 16h30 às 18h30

Palestrantes: Joaquim Paulo Serra (SOPCOM/INTERCOM); Messias Guimarães Bandeira

(UFBA); Marina Pita (Coletivo Intervozes); Raquel Paiva (UFRJ); Thomas Tufte (Loughborough University London)

Moderador: Juliano Mendonça Domingues da Silva (UNICAP/INTERCOM)

A última mesa do 42º Ciclo de Estudos Interdisciplinares da Comunicação traz as redes sociais digitais ao centro do debate, por serem essenciais quando o tema são as disfunções do sistema democrático. “O grau de influência dessas ferramentas nas relações de poder e sua instrumentalização por determinados grupos, bem como sua capacidade de produzir novos atores relevantes nas mais diversas arenas de disputa, demandam novos modelos analíticos, mais adequados às peculiaridades das circunstâncias”, avalia o professor Juliano Domingues (UNICAP), diretor Regional Nordeste da Intercom e moderador da Mesa 3. “Ao colocar essa temática no centro do campo da Comunicação, a Intercom indica e reforça a agenda de pesquisa, sobretudo da pesquisa em rede”, completa.

O moderador destaca a participação de pesquisadores de diferentes nacionalidades na mesa, o que contribuirá para definir “o caminho a ser percorrido em busca de teorias, métodos e técnicas que deem conta da complexidade de fenômenos globais sem perder de vista as especificidades latino-americanas”.

Um desses participantes será o português Joaquim Paulo Serra, professor do Departamento de Comunicação e Artes da Universidade da Beira Interior e atual presidente da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação (Sopcom). “Será uma honra e uma aprendizagem – não só pela craveira dos pesquisadores que compõem a mesa, mas também pelo fato de partilhar com eles a possibilidade de discutir a experiência brasileira atual, a muitos títulos única e que contrasta fortemente com a portuguesa”, avalia, acrescentando que pretende acompanhar outros eventos do Intercom 2019. “Este congresso será mais uma ocasião para a Intercom mostrar sua excelência em termos científicos e organizacionais e, ao mesmo tempo, estreitar suas relações com associações de pesquisadores de Ciências da Comunicação de outros países, incluindo a Sopcom”.

Sobre a temática da Mesa 3 do Ciclo de Estudos, o professor Paulo Serra afirma que pretende discutir as possibilidades de regular as redes sociais digitais, tomando como ponto de partida as iniciativas jurídicas e políticas em curso na União Europeia. “Se, por um lado, essas redes são ‘redes de indignação e esperança’ (Castells), que permitem insurgências democráticas como as da ‘Primavera Árabe’, por outro lado elas são redes de ódio e agressão, que promovem uma lógica neotribal, xenófoba, racista e populista, como se encontra patente nas atuais experiências políticas de países como os EUA, o Brasil ou a Itália, para nos referirmos apenas a alguns”, afirma, ao explicar brevemente a necessidade de regulação. “A regulação passa, no essencial, por conceitualizar essas redes como meios (análogos, por exemplo, aos jornais), devendo seus proprietários/editores responder pelos conteúdos que neles deixam circular, e não como meras plataformas, em que podem circular quaisquer conteúdos, por mais que atentem contra os direitos humanos, a igualdade e a democracia. Que tal regulação não é fácil, é um truísmo; que ela possa ser possível, e como, eis o que merece ser discutido”, completa.

INSCRIÇÕES ATÉ 08/08

As inscrições de ouvintes para o Intercom 2019 seguem até o dia 8 de agosto e as vagas são limitadas. Para mais informações e inscrições, acesse o Portal Intercom.

Além do Ciclo de Estudos, os congressistas terão a oportunidade de se matricular em oficinas e minicursos, assistir a sessões de apresentação de trabalhos nos Grupos de Pesquisa, Intercom Júnior e Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom), e conferir os livros e publicações lançados no Publicom. A programação do congresso inclui, ainda, eventos científicos como o IV Colóquio Latino-americano (Pan Amazônico) de Ciências da Comunicação, o VI Encontro Internacional do Colégio dos Brasilianistas da Comunicação, a Jornada Beltraniana 2019 (Rede Folkcom), o V Fórum Socicom-Intercom, o Fórum Ensicom 2019 (que terá a última audiência pública sobre as Diretrizes Curriculares de Publicidade e Propaganda), o III Fórum de Rádios e TVs Universitárias, o IV Fórum Comunicação e Trabalho, o II Ciclo Amazônia e o IV Colóquio Jornalismo, Resistência e Literatura.

Clique aqui para conferir a programação preliminar do Intercom 2019.

Texto: Jornal Intercom

Núcleo de Inovação e Tecnologias Aplicadas a Ensino e Extensão – NITAE2 | Universidade Federal do Pará | Belém-PA.